terça-feira, 14 de novembro de 2006

Metafisicolinguagem


Há um quê de tristeza nos poemas
Nas metalinguagens, nos versos e rimas
Num amor, outrora ardente, atravessando as sinas
De uma poesia métrica, nascida inerte e vazia.

Há, nas entrelinhas, um rancor sem vida
Nas pálidas imagens, no calar da despedida
De quem um dia foi escravo do amor latente
De uma poesia métrica, nascida vã e inconseqüente.

Há uma dor por trás de tantos odes e elegias
Nas entranhas das trovas, no papel e na tinta
Uma cor, outrora ardente, se insinua pelas cortinas
Que separam este homem, imerso em versos e amores, da vida.

3 comentários:

Quimica da Poesia disse...

As estranhezas humanas
Não quero mais o motivo
das coisas.
Nem mais cobiço
as verdades que se escondem,
avaras, no âmago límpido
das estranhezas humanas.

Foi-se-me a fome de nuvens,
foi no escuro, antes da aurora.

Trava-me o gosto da vida,
de tão pesada, esta absurda
precisão que tem meu ser
de ser sempre inteiramente,
sempre intensamente: em tudo.
Sobretudo no saber.
Contudo sequer alcanço
a escassa fímbria da sombra
do saber que em vão persigo.

Não quero mais os motivos.
As coisas que me sucedam
a seu gosto: em meu desgosto
hei-de fronteá-las.
O mundo
que avance conforme a lei
(se é que mistério tem lei)
que rege e doma as razões
com que engana, cauteloso,
a todos que lhe moramos.

As mágoas que me chegarem
não lhes irei mais às causas:
simplesmente as sofrerei
- como quem sofre, fazendo
de conta que está fingindo.
Assim vai ser. Não me quero
nem a própria explicação.

O que escondido restar,
que reste.
Já me cansei
de mergulhos - sempre vãos,
sofridos sempre - em funduras
onde peixes lisos, frios
e invisíveis, acalentam
com ferrões feitos de nada
o desencanto da vida.

Assim me sonho. Entrementes,
me transpareço e me aceito.

Thiago de Melo, "Canto do Amor Armado", Moraes Editores, Lisboa, 1974, pp. 154/5

Quimica da Poesia disse...

gostei da sua poesia..Forte e profunda..Parabéns!!
Bjs
Maga

Marcelo Ribeiro disse...

E na percepção notória do vazio,
descobrimos a fagulha,
que do nada ainda descoberto brota,
formando um big-bang quimérico
que nos move em sentido poético.

abraços e lindo poema