1
Foi pelo caminho mais difícil:
Tapou os ouvidos, atravessou o corredor
E toda aquela gente gritando, chamando, olhando torto
Cortando os pulsos com os olhos
Sentiu-se morto
E já que ninguém deu por falta
Sentou-se à esquerda na passarela
Atrapalhando o tráfego
Cobriu os pés, fechou os olhos e se curvou:
Descansou.
2
Do outro lado do viaduto, o fedor do rio:
Vinha com pressa, olhando em volta
Alguém podia notá-la, era tanta gente nas escadas, no ponto,
Os ônibus lotados, o mau cheiro, o calor
Sentia-se seguida, perdida
Mas como estava cansada
Sentou-se no meio fio,
Pegou a pedra, apertou-a, sentiu-se morta,
Revirou os olhos, beijou o céu
Acendeu o fósforo e se largou:
Delirou
– e dormiu.
3
Mais perto do verde, mais frio;
Beijou o rosto no espelho do banheiro, desejou-se um bom dia
Guardou o pouco que tinha no casaco, entre os dedos, no bolso
Sentia o impulso apertando o peito
Cheirou; sentiu-se vivo
Como ninguém o notava, caiu em si
Chorou, compulsivamente e sozinho,
Atravessou, desceu da balsa, avistou a ponte,
Pegou um desvio no caminho, pensou e pensou:
Calou-se
E mergulhou no rio.
4
Na porta da loja, pegava vento
Falando com quem passava, todo sorrisos
A banquinha em mãos, esperava, esperava, esperava
Só de olharem já era um alento
- era visível –
Mas nunca, nenhum dia, alguém comprava
Afinal, era um velho fedido
Um dia cansou, puxou a navalha
Gritou por ajuda – ninguém entendeu, queria atenção
Mas, em vez de ouvir,
Aquela gente ficou assustada
Chamaram o segurança,
Tomou porrada,
Foi parar na delegacia,
Pegaram dele o pouco que restava
De volta à rua, encarou o viaduto
Olhou para o céu, depois para os pés, e pensou:
É hora
E desistiu.
Sem pretensões, sem referências pseudoliterárias, sem joguetes verbais de grande complexidade, sem autores obscuros de referência, sem nada. Só escrita.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
sexta-feira, 1 de abril de 2016
2016
Essa sucessão de ideias soltas
Essas frases de efeito vazias
Essa raiva de tudo que se move
Essa vontade de gritar, cuspir na cara,
Mandar pro inferno – e que nunca volte!
Esse grito guardado
[que vem à tona depois de cuspir no prato]
esse jeitinho pacato
que, lá no fundo, é histeria
tudo falso
tudo bem montado
tudo encenado
monitorado:
demagogia
Essa gente de bem,
Tão sensata e cheia de si,
Parece estar incomodada
Mas – mal sabe – é mobilizada
Sem que se dê conta do que está por trás
Mas insiste em estar aí
Na cara
Essa é a nossa mais nova energia
O que nos move, o que nos intriga
Espumante, babante,
Revolta seletiva e programada
Vazia em meias-palavras
E cheia de covardia
Singularizada:
O problema está numa cara
E uma tremenda gritaria
Esconde os reais motivos
No fim das contas, tudo decidido
Essa vontade de largar tudo,
Essa moral que serve de escudo
É, antes de mais nada,
Fruto de pequenos arroubos seletivos
Essa sucessão de revoltas
Esses projetos, essas ideias já mortas
Essa nuvem que paira à nossa volta
Tudo já esteve por aí
E voltou para nos lembrar
Que pobres de espírito somos
Nunca aprendemos,
Nunca cansamos
Essa é a mais pura demonstração de não afeto
De um desejo mórbido, passado, abjeto
Que, não fosse escuso, não surgiria
Travestido de vontade de guerra
E, mesmo assim, sendo chamado
Cidadania.
Essas frases de efeito vazias
Essa raiva de tudo que se move
Essa vontade de gritar, cuspir na cara,
Mandar pro inferno – e que nunca volte!
Esse grito guardado
[que vem à tona depois de cuspir no prato]
esse jeitinho pacato
que, lá no fundo, é histeria
tudo falso
tudo bem montado
tudo encenado
monitorado:
demagogia
Essa gente de bem,
Tão sensata e cheia de si,
Parece estar incomodada
Mas – mal sabe – é mobilizada
Sem que se dê conta do que está por trás
Mas insiste em estar aí
Na cara
Essa é a nossa mais nova energia
O que nos move, o que nos intriga
Espumante, babante,
Revolta seletiva e programada
Vazia em meias-palavras
E cheia de covardia
Singularizada:
O problema está numa cara
E uma tremenda gritaria
Esconde os reais motivos
No fim das contas, tudo decidido
Essa vontade de largar tudo,
Essa moral que serve de escudo
É, antes de mais nada,
Fruto de pequenos arroubos seletivos
Essa sucessão de revoltas
Esses projetos, essas ideias já mortas
Essa nuvem que paira à nossa volta
Tudo já esteve por aí
E voltou para nos lembrar
Que pobres de espírito somos
Nunca aprendemos,
Nunca cansamos
Essa é a mais pura demonstração de não afeto
De um desejo mórbido, passado, abjeto
Que, não fosse escuso, não surgiria
Travestido de vontade de guerra
E, mesmo assim, sendo chamado
Cidadania.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Bárbara
Umas três da manhã
Desceu, de escada e de pijama,
Acendeu um cigarro, descalça passou a portaria
Desceu a ladeira
Bem mais devagar do que de costume
Bem mais feliz do que gostaria
Arrastou a pele contra a garoa fina
Era verão, mas pouco importava:
Não tinha proteção, nem energia,
Chegou ao canal, sentou-se à beira
Viu seu olho vazio espelhado naquela nojeira
Por algum motivo, permanecia inteira
E ali ficou, punindo-se com o fedor
e o frio.
Ninguém entendia,
Parecia louca,
Mas às vezes cansava da segurança;
Às vezes só queria se expor como todo mundo
Há quantas noites ia sentar por ali
Procurando um problema para a sua vida
Sentia um vazio enorme, e tão pesado
- E tão profundo! –,
No entanto, nunca encontrava nada
Para onde olhava, só se via.
No fundo, era isso que a fascinava:
A sensação de que ia, voltava,
Pegava o roteiro de sua vida e amassava
Jogava-se no lixo
Mas tudo permanecia no mesmo estado:
Toda tentativa de dar a volta
dava num caminho ermo e equivocado.
Um dia, então, deu-se conta
Precisava atravessar a ponte, ir até a ponta,
Dividir o chão com aquela gente semimorta
Era hora de ser outra;
Estava pronta.
Largou no chão suas roupas
A bolsa, largou na esquina,
E assim, entregue, absorta,
Entregou-se a si mesma
Naquela noite fria, sentiu-se nua e forte
A manhã nasceu com cheiro de morte
Pra moça de alma rouca
Via-se numa estrada infinita, vazia,
Agora não mais falava;
Só ouvia.
Qualidade
Farsantes e mais farsantes
Andando juntos, cheios de glória
Brincando de viver, brincando de si
Brindando suas próprias conquistas
Tão desproporcionais, irreais
Tão delirantes
Expandem suas conquistas
Coisas pequenas, subitamente, tomam vida
Apagam o que está à volta:
Não satisfeita em se deixar ver
Essa gente se deixa escarnecer,
É sua própria piada
Seu próprio alimento
Sua própria razão de vida.
Essa gente pequena, mas que se engorda
Olha-se no espelho e fica assim, absorta,
No entanto, finge-se de morta
Quando precisa;
E aí convence, e assim se perpetua,
às vezes sem notar,
Sem se fazer percebida.
São como vermes comendo uma fruta na cesta
Sobrevivem de migalha
De vender-se e, sei lá como, gerar encanto
Gentalha – se um dia soubesse imitar
Não seria tão frágil e exposto
Querendo ser só assim
Normal
Quase mediano.
Andando juntos, cheios de glória
Brincando de viver, brincando de si
Brindando suas próprias conquistas
Tão desproporcionais, irreais
Tão delirantes
Expandem suas conquistas
Coisas pequenas, subitamente, tomam vida
Apagam o que está à volta:
Não satisfeita em se deixar ver
Essa gente se deixa escarnecer,
É sua própria piada
Seu próprio alimento
Sua própria razão de vida.
Essa gente pequena, mas que se engorda
Olha-se no espelho e fica assim, absorta,
No entanto, finge-se de morta
Quando precisa;
E aí convence, e assim se perpetua,
às vezes sem notar,
Sem se fazer percebida.
São como vermes comendo uma fruta na cesta
Sobrevivem de migalha
De vender-se e, sei lá como, gerar encanto
Gentalha – se um dia soubesse imitar
Não seria tão frágil e exposto
Querendo ser só assim
Normal
Quase mediano.
Percepção
Acordou, da cama gritou para os pais:
Hoje vai ser um bom dia!
Saiu de casa, rodou, andou, deu voltas,
Encontrou uma gente de cara fechada,
Abraçou quem gostava,
Apertou as mãos, bateu algumas portas
Vendeu-se bem: menina esperta;
Mas, de novo, não ganhou nada.
Voltou pra casa cabisbaixa,
com a sensação de derrota;
chorou um pouco, trancou a porta,
depois voltou à sala,
Disse-lhes novamente:
Amanhã vai ser incrível!
Vou dormir, estou morta.
E assim foi mesmo:
No dia seguinte, estava na rua e viu as luzes ao longe
antes que pudesse dizer qualquer coisa
reconheceu a cara,
o suor, a cara de ódio:
lembrou seu fedor,
lembrou seu nome.
Saiu correndo
Derrubou uns pelo caminho
A bolsa caiu na vala
A chuva caía devagar, cortante
Sentiu-se impotente
Tentou pedir ajuda
Não deu tempo:
sentiu a pontada no peito.
Caiu no chão, devagar
viu-se, então, morrendo
beijando uma poça, virada pra serra
a alma ardendo.
Tão bela, tão exposta
largada na lama, que nem bosta;
fechou os olhos como todas as noites:
com um mundo inteiro gritando
e um monte de gente esperneando
lá dentro de si.
Expectativa
Pra que planejar tanto
Organizar tudo mentalmente
Colocar as coisas no chão
Montar um caminho,
Eleger uma direção
Fingir-se cheio de planos
e estar seguro de si
Se, no final,
É sempre tão diferente,
Se é sempre não viver,
E sim assistir?
Pra que expectativa?
Mover as peças, acender a luz
De repente pensar:
Essa não é a minha vida!,
Se no fim das contas a gente se depara
Com alguma surpresa amarga
E dá meia-volta
E volta de onde partiu:
Se dá conta que nem saiu
Da própria cabeça
e das próprias expectativas
Por que mexer
Nesse mesmo lugar que, vez ou outra,
É ferido
Se no fundo, nada muda,
Só fica o incômodo
A frustração, a dúvida
A sensação de que algo nisso tudo
Nunca fez – nem fará – sentido?
Organizar tudo mentalmente
Colocar as coisas no chão
Montar um caminho,
Eleger uma direção
Fingir-se cheio de planos
e estar seguro de si
Se, no final,
É sempre tão diferente,
Se é sempre não viver,
E sim assistir?
Pra que expectativa?
Mover as peças, acender a luz
De repente pensar:
Essa não é a minha vida!,
Se no fim das contas a gente se depara
Com alguma surpresa amarga
E dá meia-volta
E volta de onde partiu:
Se dá conta que nem saiu
Da própria cabeça
e das próprias expectativas
Por que mexer
Nesse mesmo lugar que, vez ou outra,
É ferido
Se no fundo, nada muda,
Só fica o incômodo
A frustração, a dúvida
A sensação de que algo nisso tudo
Nunca fez – nem fará – sentido?
terça-feira, 14 de julho de 2015
#87

Nunca se havia dado ao luxo
de encher o peito de ar,
pensar em paz,
pensar menos em produzir,
não se forçar a agir
sempre rápido - e antes dos demais;
Quando o fez, ninguém entendeu:
- planos não existem para ser mudados
- ideias não servem de nada sem resultados
- o que você quer fazer da vida?
E tudo em que ela pensava era na dívida
que mantinha consigo mesma
e com seu próprio cansaço.
Sempre que tentou parar um segundo
disseram-lhe que andava indecisa,
que algumas prioridades são dignas,
outras, sinais de descaso
e de projetos inconsistentes;
Um dia percebeu: roubaram-lhe o tempo
e o espaço,
não deram nenhuma margem para o acaso;
percebeu sozinha, e à sua maneira,
que a cada dia se tornaria menos gente,
que estar feliz viraria algo intermitente;
mas chegou a hora de jogar tudo pro alto.
Concluiu: não era perda de tempo
deu-se margem para errar
rever escolhas,
flanar,
achar um jeito próprio de falar de si
de autoconstrução, estar-no-mundo,
de existir;
Ela aprendeu, enfim, a olhar para dentro
e enxergar-se como um projeto,
uma obra aberta
ainda por narrar
e ainda por abrir.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Nature
There´s no limit for people
And their pleasure for treason;
If you dig up too much their nature
You see the disharmony of the Real:
People are strange,
Got no mercy,
And if if you look from a certain range
You´ll figure how easy it is
To make people suffer
Using their own weapons.
Even things that seem done for no reason
- They´re predictable
If you insist in understanding
That thing called human behavior
People, nowadays,
They´re in a rage,
And if you burn their bibles,
And rip off their arguments,
And summon their worst desires,
You´ll figure how it is after all:
Everyone seems so full of virtue
´Till worldly needs come and knock
Then you see real people,
Drowning in their hate,
Demanding others´ fate:
A world stably unequal.
It´s no reason to shock:
We're meant to be the same
But since forever
It´s been a game
Of exploitation, self-destruction,
Inescapable delusion
And self-enjoyment
of our endless evil.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Stiffened
A gente sempre se cria
Como expectativa
Esperança que alimenta
Fica cercado de olhar
Pensa em tudo – meticulosamente
Se reinventa
Percebe que estão à volta,
[presença tensa]
E aí teme desabar
E o medo da gente
Passa a ser o medo do outro:
De uma cobrança que se projeta
Cercando nossos passos;
Apesar de tudo que – teimosamente –
A gente tenta
No fundo, é frágil
A diferença entre o que espera
E o que descobre,
de um jeito amargo e frustrado
A gente é pura incerteza
Pisando em caco de vidro
Deslizando os dedos num corrimão falso
A gente não pode perder a beleza
Só porque se sente perdido
Descobrindo-se vivo num pequeno fracasso
A gente se dói por outra gente
Porque sabe como é estar ferido
E mesmo assim ser fingido no cansaço
Porque sabe que tem que estar erguido
Forte, resistente
Quando tudo o que a gente quer
É dormir uma semana, um mês,
o que dormiria toda a gente:
quando o que a gente quer é afeto em silêncio,
e uma dor em pequenos pedaços.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Mind drive

Do we need to enlighten slowly
Just to get in someone's dirty arms
Lose all grips while roaming
Unconnected, but glowing
This is real life's only glory:
To be forced - to hate yourself
Though you dont know exactly who you are
May seem pretensious but it's no reason to worry
All these people don't deserve each other
With their ran-out-of-time minds, all in disorder
They're all connected, but never evolving
This is real-time untold story
No one's justice will save them from themselves
This is madness
And i'll try
Not to drift in the senseless
Mind drive
She needed to defy herself strongly
So what about pride? This came down easily
Someone says it's all about not thinking
She's unprotected, though claiming
All is perfect, at least unchanging:
This is real-time decadence
And everyone's pleased to watch it from afar
But me
This is emptiness
And i'll hide
I won't look after her in this senseless
Mind drive
sábado, 25 de janeiro de 2014
Ruído
Por tantas vezes pensei que tinhas esquecido
Como é pequena toda esse gente
E tão frágeis, intermitentes
São seus lampejos de inteligência e consciência de si
Eu quase aprendi
Que tanta gente reunida no mesmo lugar
Só sabe pensar com o fígado
Não é possível: tens que saber
A ignorância é universal;
um mal incontido.
Se um dia nos fizeram crer
Que, com tanto espaço cedido,
Seríamos mais sábios, mais eloquentes,
Mais críticos,
Foi só para nos fazer descobrir; pura ironia!
Há muito percebi
Que tanto dualismo,
Tanta ideia persistente
É só sinal de uma deliberação demente
Que nada tem de sentido
Que nada nos dá além de ruídos
Com os quais preencher os gritos
E, elegantemente, ranger os dentes.
Eis, então, o mais contraditório dos mundos: muito se diz, lê, analisa, opina - e finge
Nada se crê, sustenta, constrói - ou atinge;
Tudo que circula por aqui é perdido
Nas baforadas hormonais que nossos ouvidos arrastam
(E, para nosso próprio bem, por vezes escapam)
Estamos, enfim, muito bem servidos
Dos inteligentes silêncios e entrelinhas
Que não mais nos tocam
Mas sibilam
E nos apagam.
Como é pequena toda esse gente
E tão frágeis, intermitentes
São seus lampejos de inteligência e consciência de si
Eu quase aprendi
Que tanta gente reunida no mesmo lugar
Só sabe pensar com o fígado
Não é possível: tens que saber
A ignorância é universal;
um mal incontido.
Se um dia nos fizeram crer
Que, com tanto espaço cedido,
Seríamos mais sábios, mais eloquentes,
Mais críticos,
Foi só para nos fazer descobrir; pura ironia!
Há muito percebi
Que tanto dualismo,
Tanta ideia persistente
É só sinal de uma deliberação demente
Que nada tem de sentido
Que nada nos dá além de ruídos
Com os quais preencher os gritos
E, elegantemente, ranger os dentes.
Eis, então, o mais contraditório dos mundos: muito se diz, lê, analisa, opina - e finge
Nada se crê, sustenta, constrói - ou atinge;
Tudo que circula por aqui é perdido
Nas baforadas hormonais que nossos ouvidos arrastam
(E, para nosso próprio bem, por vezes escapam)
Estamos, enfim, muito bem servidos
Dos inteligentes silêncios e entrelinhas
Que não mais nos tocam
Mas sibilam
E nos apagam.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Heathen
Levantou-se,
Andou,
Caiu no meio do corredor,
Sentiu alguma dor
E se acostumou
Beijou as mãos,
Sorriu,
Pensou estar no meio da rua
E, pudica, mas nua,
Dormiu
Meia hora depois,
Pensou,
A mente que ardia não estava ali;
Talvez não falasse mais por si
Mas, sabe-se lá como, concordou,
Assentiu
E, dali a alguns minutos, sumiu
Teimosa, mesmo assim se despediu
De todos
E de si.
domingo, 21 de julho de 2013
Frame
Dá cansaço estar em dia com tudo,
Diante dos mesmos problemas vencidos
Encarar o tempo livre como obrigação
- e toda obrigação como fuga -,
Viver um pastiche de vida
(todos os dias muito bem vivida)
Ostentar uma mente saudável, em paz,
Quando o que se tem dentro de si
É caos, fraqueza,
incompreensão e angústia
- tudo frágil e mundano;
Não, nada parece estar fora do lugar
Aliás, nunca esteve
e mesmo assim, sempre ao abrir os olhos,
O mundo ao redor parece girar
Tudo soa por demais cansativo
Conquista já celebrada, algo premeditada
É tão sóbrio, tão reconfortante,
Mas, ao mesmo tempo, tão repetitivo...
O marasmo de um sem número de detalhes,
Pequenas felicidades e pausas amenas
É o que nos faz render a mente, ontem hoje e sempre, à agonia:
Falseando sorrisos, engolindo em seco
e agradecendo todos os dias
Por parecer sempre agradável, inteligente, sagaz
Quando o peso do mundo está todo dentro de si,
É tudo disfarce
No fundo, sou (és?) dor, pequenez,
Incomunicação e vazio
- tudo insólito, mas inevitavelmente
humano.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Lens
She walks through the door
With her heart held in hand
Their eyes laid on her lap
She feels so estranged,
But won´t give up at last
Her hands have touched those of god
However, no one´s been sure of
She decided, then,
It´d be better on her own
Then nothing else would happen
Then no one would ever be damned
But her.
She crosses the avenue,
And traffic lights won´t reflect in her hands
And a thousand lives could be seen in her eyes
Though everyone could see, instead,
Bright, but lifeless, blue skies
Dancing on her parting glare
Those eyes had seen time
Pass through everyone´s door
She decided, then,
It´d be peacefully tender
To finish it on her own
So no one´s road would flatten
Nothing else would matter
No one else would be blessed
But her.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
5m14d
Sempre que a gente se acostuma
Que os hábitos viram rotina
Que a mente repousa - se ocupa
Sempre que o cansaço e o tempo
Que os hábitos viram rotina
Que a mente repousa - se ocupa
Sempre que o cansaço e o tempo
Encarregam-se de fazer suas costuras
Lembro de ti,
Lembro de ti,
As mãos tremulam,
A memória se curva
E a saudade se aproxima;
Sempre que venho aqui,
Me descubro mais homem feito,
Com cansaços, aprendizados,
corpo e mente cheio de calos,
Projetos quase concretizados,
E mesmo assim sentindo que falta algo,
Alguém a mais para dividir, (com)partilhar,
Aí lembro que, embora refeito,
Continuo jovem, projeto de gente,
Moleque imperfeito,
Teu filho;
E a saudade se aproxima;
Sempre que venho aqui,
Me descubro mais homem feito,
Com cansaços, aprendizados,
corpo e mente cheio de calos,
Projetos quase concretizados,
E mesmo assim sentindo que falta algo,
Alguém a mais para dividir, (com)partilhar,
Aí lembro que, embora refeito,
Continuo jovem, projeto de gente,
Moleque imperfeito,
Teu filho;
Às vezes me surpreendo:
Bem que todos fazem sua parte,
A gente aprende a rir de tudo,
A sentir falta como adulto
A ostentar uma tal - diz-se - maturidade,
Mas, no fim das contas,
Em um torpor meio sem nexo
Vem a vontade de não (querer) estar no mundo
E, sem eira nem beira,
Bem que todos fazem sua parte,
A gente aprende a rir de tudo,
A sentir falta como adulto
A ostentar uma tal - diz-se - maturidade,
Mas, no fim das contas,
Em um torpor meio sem nexo
Vem a vontade de não (querer) estar no mundo
E, sem eira nem beira,
Contrariar tudo
E te ter aqui,
E ser criança de novo,
E ser novo,
Eu, tu, nós,
Vivos de novo - e juntos.
E te ter aqui,
E ser criança de novo,
E ser novo,
Eu, tu, nós,
Vivos de novo - e juntos.
domingo, 30 de setembro de 2012
3h05
Pensei sentir tuas mãos coladas às minhas,
Como se, de um dia para o outro, voltássemos à vida;
Como se, de novo, apenas alguns segundos me separassem
Da tua voz, da tua saudade,
Da nossa amizade,
Da tua alma presente – e da tua mente viva;
Não, não me habituei:
Ainda perco o equilíbrio sempre que nos escuto
Que me olho no espelho e te vejo lá, robusto,
Vivendo em mim, em minha saudade,
Em meus olhos ausentes –
Doentes, disfarçados pela rotina;
Devias estar aqui,
E se não estás
É porque, lá no fundo,
Sei – sabemos – que foste embora
De uma vez,
Só uma vez, e, infelizmente,
De verdade.
sábado, 29 de setembro de 2012
Love design
The delight of body sounds
And lads and lovers´ yawning talk
And cheesy lights of silent lanes
And lovely barks of young hounds
And thundering rain clouds:
They bring me to ecstasy
I´m close as ever to be
Surrounded by these city lovers,
Their feel and their touch
and their deep-inside reality:
Somehow, and sometimes
I feel as if love design
Could be touched by my fingers
And brought to my walls and ceiling
(Real-time),
As if someone could share
Through walls of concrete
The despair men are breeding
When soulless and incomplete;
As long as i am young and still breathing
I am done of believing
Someone dares.
The fear of seeing unseen ghosts
Wander around the space you´re leaving
That made me feel like i had gained
A whole city to fear,
Thousands of stories to hear
From those who are still living,
Still leaving their others
And complaining,
Though, breathing;
The shapes of these corners, they´re hurting
Somehow it´s clear that there were others
So many young and heartful city lovers
Betrayed by their own routine and, foremost,
By the touch of life´s insanity:
Somehow, and sometimes
I feel as if love design
Could be touched by my fingers
And brought to my walls and ceiling
(Real-time),
As if someone could share
Through walls of concrete
The despair men are breeding
When soulless and incomplete;
As long as i am young and still breathing
I am comfortable in believing
No one cares.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
(V)alley
Every day you get along here´s a trial
Believe me:
The only reason you´re living
Is your conscience´s survival
(so free me)
I´m leaving
But not before sharing some words
In the beginning
I feel you´re curious
But, somehow,
Expecting the worst;
These tunnel lights, they´re screaming
The sound, the crowd, the flashes,
The routine ashes,
Daydreaming,
Quiet sights and calm long nights
Are the only missing
Here I can´t be seen at all,
The landscape is much too small
Cut down by soulless ropes of iron
Bodies of concrete,
Skies of fire,
Now i´ll cut down the weed
And walk these walls and streets
Just to feel entire
Guess the alley downward
Can be somehow a path
For us to be
On wire.
terça-feira, 24 de julho de 2012
0h50
Não estavas consciente
(tampouco nós),
mesmo assim, apertei
tuas mãos,
senti que era ouvido;
Despedi-me de ti, e o(s)
sentido(s)
Parecia(m) a todo
momento
Querer fugir
Dali.
Agora, já distante,
Com o coração rouco,
Sabendo que estás
longe
(Embora não morto),
Encontro teus passos,
Tua voz e teus atos (em mim)
E busco, assim,
encontrar meu espaço
Nesse mundo – agora – cinza
e oco;
Não tinha nada em
mente
quando, pela última
vez, te ouvi
ao telefone;
mesmo assim, doeu-me o
peito,
aquele adeus foi tão
abrupto,
tão insuspeito,
que sinto que ainda há
muito a te dizer;
Ainda não sei estar
longe de ti,
Mas um dia aprendo
Um dia te reencontro
Um dia, talvez, o
tempo
se faça sentir
Passar por mim.
:::::
Descansa em paz, meu pai querido.
:::::
quinta-feira, 12 de julho de 2012
73min
Não conheço bem a dor
da perda,
E, talvez por sabê-lo
Temo te encontrar de
olhos cerrados,
Cansados, deixando a
vida
Escapar pelos poros
quase-fechados
Por remendos e
farrapos
De uma alma
enfraquecida;
Te vi – e vejo – nos pequenos
sinais
Junto comigo, no
andar, no jeito
Por isso mesmo, sempre
me dói o peito
Quando penso em ti,
sempre à risca,
Sobreviver e sofrer
por tantos passados,
Erros já vencidos, perdoados
Por mim, por ti, por
todos:
Por toda a gente que
está aqui, contigo,
Na torcida:
Hoje pensei em
desfalecer, entregar os pontos,
Chorar por ti
Mas me aguento em pé
Só para não ter que
encarar isso;
Tão dispensável,
Tão dispensável,
Tão indesejável
Tão – espero –
improvável
despedida.
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