sábado, 25 de janeiro de 2014

Ruído

Por tantas vezes pensei que tinhas esquecido
Como é pequena toda esse gente
E tão frágeis, intermitentes
São seus lampejos de inteligência e consciência de si
Eu quase aprendi
Que tanta gente reunida no mesmo lugar
Só sabe pensar com o fígado
Não é possível: tens que saber
A ignorância é universal;
um mal incontido.

Se um dia nos fizeram crer
Que, com tanto espaço cedido,
Seríamos mais sábios, mais eloquentes,
Mais críticos,
Foi só para nos fazer descobrir; pura ironia!
Há muito percebi
Que tanto dualismo,
Tanta ideia persistente
É só sinal de uma deliberação demente
Que nada tem de sentido
Que nada nos dá além de ruídos
Com os quais preencher os gritos
E, elegantemente, ranger os dentes.

Eis, então, o mais contraditório dos mundos: muito se diz, lê, analisa, opina - e finge
Nada se crê, sustenta, constrói - ou atinge;
Tudo que circula por aqui é perdido
Nas baforadas hormonais que nossos ouvidos arrastam
(E, para nosso próprio bem, por vezes escapam)
Estamos, enfim, muito bem servidos
Dos inteligentes silêncios e entrelinhas
Que não mais nos tocam
Mas sibilam
E nos apagam.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Heathen

Levantou-se,
Andou,
Caiu no meio do corredor,
Sentiu alguma dor
E se acostumou

Beijou as mãos,
Sorriu,
Pensou estar no meio da rua
E, pudica, mas nua,
Dormiu

Meia hora depois,
Pensou,
A mente que ardia não estava ali;
Talvez não falasse mais por si
Mas, sabe-se lá como, concordou,
Assentiu

E, dali a alguns minutos, sumiu
Teimosa, mesmo assim se despediu
De todos

E de si.

domingo, 21 de julho de 2013

Frame

                           

Dá cansaço estar em dia com tudo,
Diante dos mesmos problemas vencidos
Encarar o tempo livre como obrigação
- e toda obrigação como fuga -,
Viver um pastiche de vida
(todos os dias muito bem vivida)
Ostentar uma mente saudável, em paz,
Quando o que se tem dentro de si
É caos, fraqueza,
incompreensão e angústia
- tudo frágil e mundano;

Não, nada parece estar fora do lugar
Aliás, nunca esteve
e mesmo assim, sempre ao abrir os olhos,
O mundo ao redor parece girar
Tudo soa por demais cansativo
Conquista já celebrada, algo premeditada
É tão sóbrio, tão reconfortante,
Mas, ao mesmo tempo, tão repetitivo...

O marasmo de um sem número de detalhes,
Pequenas felicidades e pausas amenas
É o que nos faz render a mente, ontem hoje e sempre, à agonia:
Falseando sorrisos, engolindo em seco
e agradecendo todos os dias
Por parecer sempre agradável, inteligente, sagaz
Quando o peso do mundo está todo dentro de si,
É tudo disfarce
No fundo, sou (és?) dor, pequenez,
Incomunicação e vazio
- tudo insólito, mas inevitavelmente

humano.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Lens


She walks through the door
With her heart held in hand
Their eyes laid on her lap
She feels so estranged,
But won´t give up at last

Her hands have touched those of god
However, no one´s been sure of
She decided, then,
It´d be better on her own
Then nothing else would happen
Then no one would ever be damned
But her.

She crosses the avenue,
And traffic lights won´t reflect in her hands
And a thousand lives could be seen in her eyes
Though everyone could see, instead,
Bright, but lifeless, blue skies
Dancing on her parting glare

Those eyes had seen time
Pass through everyone´s door
She decided, then,
It´d be peacefully tender
To finish it on her own
So no one´s road would flatten
Nothing else would matter
No one else would be blessed
But her.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

5m14d

Sempre que a gente se acostuma
Que os hábitos viram rotina
Que a mente repousa - se ocupa
Sempre que o cansaço e o tempo
Encarregam-se de fazer suas costuras
Lembro de ti,
As mãos tremulam,
A memória se curva
E a saudade se aproxima;

Sempre que venho aqui,
Me descubro mais homem feito,
Com cansaços, aprendizados,
corpo e mente cheio de calos,
Projetos quase concretizados,
E mesmo assim sentindo que falta algo,
Alguém a mais para dividir, (com)partilhar,
Aí lembro que, embora refeito,
Continuo jovem, projeto de gente,
Moleque imperfeito,
Teu filho;

Às vezes me surpreendo:
Bem que todos fazem sua parte,
A gente aprende a rir de tudo,
A sentir falta como adulto
A ostentar uma tal - diz-se - maturidade,

Mas, no fim das contas,
Em um torpor meio sem nexo
Vem a vontade de não (querer) estar no mundo
E, sem eira nem beira,
Contrariar tudo
E te ter aqui,
E ser criança de novo,
E ser novo,
Eu, tu, nós,
Vivos de novo - e juntos.

domingo, 30 de setembro de 2012

3h05


Pensei sentir tuas mãos coladas às minhas,
Como se, de um dia para o outro, voltássemos à vida;
Como se, de novo, apenas alguns segundos me separassem
Da tua voz, da tua saudade,
Da nossa amizade,
Da tua alma presente – e da tua mente viva;

Não, não me habituei:
Ainda perco o equilíbrio sempre que nos escuto
Que me olho no espelho e te vejo lá, robusto,
Vivendo em mim, em minha saudade,
Em meus olhos ausentes –
Doentes, disfarçados pela rotina;

Devias estar aqui,
E se não estás
É porque, lá no fundo,
Sei – sabemos – que foste embora
De uma vez,
Só uma vez, e, infelizmente,
De verdade.

sábado, 29 de setembro de 2012

Love design




The delight of body sounds
And lads and lovers´ yawning talk
And cheesy lights of silent lanes
And lovely barks of young hounds
And thundering rain clouds:

They bring me to ecstasy
I´m close as ever to be
Surrounded by these city lovers,
Their feel and their touch
and their deep-inside reality:

Somehow, and sometimes
I feel as if love design
Could be touched by my fingers
And brought to my walls and ceiling
(Real-time),

As if someone could share
Through walls of concrete
The despair men are breeding
When soulless and incomplete;

As long as i am young and still breathing
I am done of believing
Someone dares.

The fear of seeing unseen ghosts
Wander around the space you´re leaving
That made me feel like i had gained
A whole city to fear,
Thousands of stories to hear
From those who are still living,
Still leaving their others
And complaining,
Though, breathing;

The shapes of these corners, they´re hurting
Somehow it´s clear that there were others
So many young and heartful city lovers
Betrayed by their own routine and, foremost,
By the touch of life´s insanity:

Somehow, and sometimes
I feel as if love design
Could be touched by my fingers
And brought to my walls and ceiling
(Real-time),

As if someone could share
Through walls of concrete
The despair men are breeding
When soulless and incomplete;

As long as i am young and still breathing
I am comfortable in believing
No one cares.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

(V)alley



Every day you get along here´s a trial
Believe me:
The only reason you´re living
Is your conscience´s survival
(so free me)

I´m leaving
But not before sharing some words
In the beginning
I feel you´re curious
But, somehow,
Expecting the worst;

These tunnel lights, they´re screaming
The sound, the crowd, the flashes,
The routine ashes,
Daydreaming,

Quiet sights and calm long nights
Are the only missing
Here I can´t be seen at all,
The landscape is much too small
Cut down by soulless ropes of iron
Bodies of concrete,
Skies of fire,

Now i´ll cut down the weed
And walk these walls and streets
Just to feel entire

Guess the alley downward
Can be somehow a path
For us to be
On wire.

terça-feira, 24 de julho de 2012

0h50



Não estavas consciente
(tampouco nós),
mesmo assim, apertei tuas mãos,
senti que era ouvido;

Despedi-me de ti, e o(s) sentido(s)
Parecia(m) a todo momento
Querer fugir
Dali.

Agora, já distante,
Com o coração rouco,
Sabendo que estás longe
(Embora não morto),
Encontro teus passos,
Tua voz e teus atos (em mim)
E busco, assim, encontrar meu espaço
Nesse mundo – agora – cinza e oco;

Não tinha nada em mente
quando, pela última vez, te ouvi
ao telefone;
mesmo assim, doeu-me o peito,
aquele adeus foi tão abrupto,
tão insuspeito,
que sinto que ainda há muito a te dizer;

Ainda não sei estar longe de ti,
Mas um dia aprendo
Um dia te reencontro
Um dia, talvez, o tempo
se faça sentir
Passar por mim.

:::::

Descansa em paz, meu pai querido.

:::::

quinta-feira, 12 de julho de 2012

73min


Não conheço bem a dor da perda,
E, talvez por sabê-lo
Temo te encontrar de olhos cerrados,
Cansados, deixando a vida
Escapar pelos poros quase-fechados
Por remendos e farrapos
De uma alma enfraquecida;

Te vi – e vejo – nos pequenos sinais
Junto comigo, no andar, no jeito
Por isso mesmo, sempre me dói o peito
Quando penso em ti, sempre à risca,
Sobreviver e sofrer por tantos passados,
Erros já vencidos, perdoados
Por mim, por ti, por todos:
Por toda a gente que está aqui, contigo,
Na torcida:

Hoje pensei em desfalecer, entregar os pontos,
Chorar por ti
Mas me aguento em pé
Só para não ter que encarar isso;
Tão dispensável,
Tão indesejável
Tão – espero – improvável
despedida.