Ah!
Há traços azuis por trás de tantas curvas cinzentas
Nas esquinas e becos, várias vozes e cantigas
Ecoando; Descansando sob o ar frágil e seco
Estão mil anos de devaneios urbanos
Por trás de olhos os quais vejo
na correria repousando
Um ar de amor ao desespero
e de torpor a ser humano.
E tantos tragam a luz do sol do meio-dia
Com seu hálito fresco e corpo cansado
A fumaça das ruas, vivas e cruas,
estradas de um pulsar ardente
É abrigo para toda essa gente
Que, ao apertar o passo
Se afoga em um ar febril e gelado
Se finge dona de um teatro
que encena e não sente.
Mas ah!
Há beleza em tanta loucura
Na imensidão de som e fúria,
há uma tristeza que não mais se sente;
Há, enfim, poesia na grande cidade,
as rimas renascem em meu peito;
de tuas cinzas, beldades:
Que o asfalto nasça
Viva a arte sem limites desta cidade inconseqüente!
Sem pretensões, sem referências pseudoliterárias, sem joguetes verbais de grande complexidade, sem autores obscuros de referência, sem nada. Só escrita.
domingo, 1 de julho de 2007
sábado, 16 de junho de 2007
Limiar

- Hoje eu me senti um século mais velho
deitado ao teu lado, sem um pingo de desejo
Entrelaçando os dedos por entre teus seios,
ouvindo teu bocejo
Como se o amor em mim fosse senil,
inimigo de tão simples deletérios;
- E eu, que nunca havia te sentido tão distante
Senti, tão próximo de mim, em vão segredo
tua face, oculta nas entranhas do medo
como se ainda fosse cedo:
Não tenhas pena de mim, meu amor
é tarde demais para revelar-me jovem;
- És, em mim, reflexo dos mesmos anseios
quando pareci cansado, dei-me forças e, imune
Ao teu ardor, lutei, impune
contra as mesmas incertezas...
Acordei suado, meu amor,
de sangue dos meus lábios e lágrimas tuas.
- Vê? Este corpo que renegas neste instante
sentiste gozar, ao som das mesmas músicas cruas
Sentindo o cheiro de cachaça exalar por entre as curvas
das noites iguais, turvas, embriagantes
Como se o amor, para nós, fosse razão de vergonha
confesso amigo dos mais tristes romances;
- E o limiar que nos separa do desejo
é o mesmo que separa tua vida do meu simples toque
é a mesma tormenta que faz com que, a cada dia, esqueça
Os prazeres da morte que tanto almejo.
(Inspirado em Memória de Minhas Putas Tristes, do Gabriel García Márquez)
deitado ao teu lado, sem um pingo de desejo
Entrelaçando os dedos por entre teus seios,
ouvindo teu bocejo
Como se o amor em mim fosse senil,
inimigo de tão simples deletérios;
- E eu, que nunca havia te sentido tão distante
Senti, tão próximo de mim, em vão segredo
tua face, oculta nas entranhas do medo
como se ainda fosse cedo:
Não tenhas pena de mim, meu amor
é tarde demais para revelar-me jovem;
- És, em mim, reflexo dos mesmos anseios
quando pareci cansado, dei-me forças e, imune
Ao teu ardor, lutei, impune
contra as mesmas incertezas...
Acordei suado, meu amor,
de sangue dos meus lábios e lágrimas tuas.
- Vê? Este corpo que renegas neste instante
sentiste gozar, ao som das mesmas músicas cruas
Sentindo o cheiro de cachaça exalar por entre as curvas
das noites iguais, turvas, embriagantes
Como se o amor, para nós, fosse razão de vergonha
confesso amigo dos mais tristes romances;
- E o limiar que nos separa do desejo
é o mesmo que separa tua vida do meu simples toque
é a mesma tormenta que faz com que, a cada dia, esqueça
Os prazeres da morte que tanto almejo.
(Inspirado em Memória de Minhas Putas Tristes, do Gabriel García Márquez)
terça-feira, 12 de junho de 2007
Objetividade
Eu sempre me julguei mais esperto que vocês
Com minhas respostas prontas e bobagens inteligentes
Tais quais cusparadas de mais um jovem demente
Inconsequente, que nada sabe dos outros ou de si
Dentro destes versos, há uma falácia fútil
Criei entrelinhas para que ninguém pudesse lê-las;
Que pretensão!
Logo eu, que mal sei ler o mundo diante de meus olhos
Querendo ter colhões para lhes destilar o ódio
Em palavras difíceis e vagos devaneios
Tão fáceis de seguir,
Fosse o acaso, ao momento, próprio.
Mas eu desvelo o que há de belo no aleatório
Nas mesmas críticas óbvias e detalhes irrelevantes
Que, de tão repetidos em rimas pobres e irritantes
Já me fizeram ter certo prazer em ser prolixo.
Dentro deste homem, há desilusão com a sintaxe
Perdi as rédeas do que há de humano em mim;
Dei as costas para as velhas metalinguagens!
Logo eu, que me julgava pronto para renegar tudo e todos
Parte do mundo que revira o estômago de poucos
E dá sentido à popular felicidade:
Aprendi que, se quero me sentir vivo, preciso, sim
Renegar a mãe dos loucos: subjetividade.
(Poesia derrotista?)
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Free Box
- Liberdade não é libertinagem.Isso mata meu amor.
Teus dias sempre foram contados,na verdade.
- Eu sei lá,nem lembro de contar quantos dias a mais já tive!
- Isso é sorte.
- Eu chamo de acaso.
- Tua redoma não protege.
Essas noites recostadas na janela são um saco.
- Não joga isso na minha cara!
Eu preciso te dizer isso...se amanhã eu não acordar,
diz que foi sorte.
Que eu já fui tarde.
Ah,como eu te dou trabalho,meu amor.
E é tão bom viver pra crer
Que eu ainda ando com meus próprios pés
Ao mesmo tempo em que me faço um parasita em ti.
- Inocência é não sentir vontade.
Já te disse,estás comprando a dor
Por correspondência,beijo a morte nua em pêlo
- Juro que vou te dizer a verdade...
Faz dias que não me olho no espelho
Por ter medo de encarar tanta decadência
Tanta frescura não me ofende,
Diz se não é tarde demais,deixa estar,então
Fecha essa janela e deixa eu te desenhar na fumaça
O vidro não estilhaça
A porta não abre
As paredes nunca falam
Ninguém sabe,ninguém saberá
Ah,como eu estou aprisionado,só você entende
É tão bom poder te ter
E te perder e te vencer com um dramalhão qualquer
Eu nem mais ando nos meus pés
Eu me arrasto sem saber pra onde vou
Aonde vou cair de vez,só Deus sabe
Só sei que dessa caixinha eu não saio
E só me calo e paro de encher o ar de fumaça quando morrer.
(Arquivo-dos-não-postados-enquanto-a-criatividade-não-vem - Março - 2006)
quarta-feira, 2 de maio de 2007
Prolixo

Acorda, levanta, come, fuma, toma banho, anda,
Rua!
É todo dia a mesma confusão,
rotina cíclica, hipertensão,
e não me venha com mais conselhos!
Chega, senta, lê, escreve, cochila, disfarça,
Pensa, repensa, supõe, argumenta,
E vai pra casa;
Mais um cigarro pra acalmar os sentidos
Mais uma pílula pra reavivar a alma.
12 horas, 13 horas, 13 e meia, 14 horas, 14 e meia,
Rua!
Não adianta fingir organização,
o caos é o mesmo companheiro todo dia:
A insônia, poeirenta paixão!
Senta, conversa, arruma o banco, acende outro,
Chega, senta, lê, escreve, reflete
E, de novo, sai correndo;
Na parada de ônibus, dá prum cochilo
E a Coca-Cola Light faz as vezes do veneno!
Passa o dia com vontade de sumir
por entre linhas e mais linhas de hipertexto;
Depois, chega em casa e sorri
pro yuppie prolixo que vê no espelho.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
Póstuma Histeria Decadente
Aos berros de asco, lhes provocando a esmo,
E se, assim, lhes mostrei o pouco que vejo,
Peço desculpas a vocês por tamanho egocentrismo.
Já fui menino, e assim sonhei com outros tempos
P´ro mundo dei de ombros: eis o resultado!
Um homem que envelhece numa redoma de aço
Entre livros e cansado, atolado em cigarros e escrevendo.
Aprendi a aprender e estudei a sua história,
Absorvi a metafísica, todas as fórmulas e conceitos;
E se a (cons)ciência nos dá, agora, certo orgulho no peito,
Levantemos então nossos diplomas hipócritas:
Saudemos os pós-doutores
Quanto mais burros, enferrujados e cheios de si,
Mais merecem nosso humilde respeito.
Se envelheci cedo demais, e o que está à minha volta
É prosa de um povo abobalhado, absorto em ideologias,
E se faço parte do coro, dissonante em velhas notas
Peço desculpas a vocês pelo fim do ódio e da histeria.
Aprendi a perder e perdi o rumo dessa história,
Engoli em seco o substrato de mil teorias falidas;
À demência, fica o fardo de guiar a minha vida
Ser assim é perder toda a beleza da retórica:
Enfim, saudemos os velhos amores
Os homens de hoje, de tão burros e cheios de si,
Enterram-se em versos de euforia!
E se a cólera de hoje são as meias-palavras
Vendidas nas esquinas por mendigos e delinqüentes,
Desculpem-me, intelectuais lustrosos e decadentes,
Mas a beleza reside nessas frases soltas e inacabadas:
Há uma poesia natural à vida, que renega o que de bom há
E, por vãmente o renegar, nos faz sentir jovens e ardentes.
(19/04/07 - fazia tempo que não escrevia algo extenso...)
sábado, 14 de abril de 2007
Mal-do-Século
Quando uma paz imensa floresce
em meio à confusão
de dias loucos e sem rumo,
você esquece, que sem direção
nós já somos,
o que nos falta é dar uma chance
ao previsível e ao oportuno.
Assim mesmo, dando de ombros
esqueçamos o quanto somos despreparados
o quanto se sabe do que sabem de nós,
afinal, nada mais vai dar errado
nós já o estamos,
o que nos falta é ligar os pontos
e no reatar dos nós,
descobrimo-nos escravos
De um roteiro em que não temos voz.
* E quando os rumos profissionais parecem estar finalmente se ajeitando, eis que (mais) um imprevisto joga o que vos escreve no emputecimento de praxe.
quarta-feira, 28 de março de 2007
Eu não conheço ninguém,ao menos imagino não entender
Porque as pessoas que eu conheço
insistam em, fora daqui, me foder
E acenar com um sorriso seco
e ir p´ra casa e nem se lembrar
Como se a rua na qual pisassem
fosse só um caminho a atravessar
Antes do leito modorrento
dos pacotes de fast-food e dos cigarros:
Mas, menino, é tão nojento
ver vocês imersos nesse sonho amargo
de brincar de existir!
Já chega de dados e meias-verdades
assim, eu, ao menos, não consigo fingir
Ser aquele cara andando no seu pátio
pisando na calçada que mandaram construir
Sobre meus palácios, avenidas, calçadas,
desconstruídas e mal-projetadas
Pseudo-vidas, pseudo-redomas, pseudo-mentiras,
pedaços de algo que só cabe a mim sentir
E eu não penso mais em afinidades,
nem em conceitos ou estatísticas
Porque os poucos homens de bem que eu conheço
já as provaram teorias falidas:
Se não os curte, me escute,
está na hora de dar uma saída
Abrir as janelas do seu quarto, quem sabe
abrir as ventanas dos olhos p´ra vida!
Se não mais vive, acredite,
está na hora de calar a boca
Liga o modem, e, em ponto morto,
Marcha pelos zeros e uns rumo à forca!
- Insistem em, fora daqui, me foder.
terça-feira, 13 de março de 2007
Divórcio, Lexotan e Meia-Luz
- Hipocrisias, não... não vai fingir que não previstes!
Hoje é um dia como qualquer outro; os erros, como outros, se repetem,
E, de novo, os papéis aqui se invertem,
E cá estou eu, te contando o que bem sentistes.
- Os anos passaram: a casa, os filhos e tudo o mais
Tornaram-se apenas nós, nos reatando cansados
E, já que a última coisa que nos trazemos é paz
Sejamos ecos e voz de um mundinho forjado!
- E que mundinho esse! Já não sei bem o que sinto;
Se a calmaria arranca o paladar da vida
Então não há graça alguma na paz de espírito
Que é, contigo, dividir a mesma vida.
- Então que se foda! Entrega nosso conforto à risca
Ao mundinho de falácias, papelada e hipocrisia
Os anos passaram: as tuas idéias falidas, jamais,
Me deixa a par de tua aventura desmiolada!
- Nunca me vistes por trás dos mais simples traços
E destes pequenos detalhes que foram passando aos poucos
abriram-se espaços: E cá estamos nós,
dormindo sem nexo, um ao lado do outro.
E se queres ver assim, como se a culpa fosse toda minha
Olha-me desnuda no espelho, e me diz quantos anos eu tinha
Na última vez em que me vistes assim!
(...)
- Já que descansamos tão pouco,
Vire p´ro outro lado da cama, e seu rosto:
Mantenha-o seco e pálido,
Aos hipócritas e falsos, todo limite é pouco;
- E tu, meu amor, durmas descansado,
Hoje não é dia para entregar-me a outros.
Hoje é um dia como qualquer outro; os erros, como outros, se repetem,
E, de novo, os papéis aqui se invertem,
E cá estou eu, te contando o que bem sentistes.
- Os anos passaram: a casa, os filhos e tudo o mais
Tornaram-se apenas nós, nos reatando cansados
E, já que a última coisa que nos trazemos é paz
Sejamos ecos e voz de um mundinho forjado!
- E que mundinho esse! Já não sei bem o que sinto;
Se a calmaria arranca o paladar da vida
Então não há graça alguma na paz de espírito
Que é, contigo, dividir a mesma vida.
- Então que se foda! Entrega nosso conforto à risca
Ao mundinho de falácias, papelada e hipocrisia
Os anos passaram: as tuas idéias falidas, jamais,
Me deixa a par de tua aventura desmiolada!
- Nunca me vistes por trás dos mais simples traços
E destes pequenos detalhes que foram passando aos poucos
abriram-se espaços: E cá estamos nós,
dormindo sem nexo, um ao lado do outro.
E se queres ver assim, como se a culpa fosse toda minha
Olha-me desnuda no espelho, e me diz quantos anos eu tinha
Na última vez em que me vistes assim!
(...)
- Já que descansamos tão pouco,
Vire p´ro outro lado da cama, e seu rosto:
Mantenha-o seco e pálido,
Aos hipócritas e falsos, todo limite é pouco;
- E tu, meu amor, durmas descansado,
Hoje não é dia para entregar-me a outros.
sexta-feira, 2 de março de 2007
A Wild Heart
e não passa de um vir-a-ser unívoco
Dois personagens em um mesmo discurso
atrelando à toda a deriva um só sentido
E descobrindo-o tão sofrido e fútil.
Como se nós fôssemos corruptos
que traíram a paz dos infelizes
Enxergando a beleza de ter os corpos desnudos
sob os lençóis encardidos do desatino.
Sou o menos belo, bom e útil
que tu possas imaginar:
Sou a carne e o espírito do desperdício
onde vês artifícios para, um dia, amar.
Há uma derrota que já se faz ouvida,
mas prometo, por ti, não a prolongar demais:
Se não me perdoas,
me perdoe, mas meu lugar não é aqui!
Esse ar abafado me perturba os sentidos:
É apenas o vício,
de confiar demais e um pouco menos em ti.
Se não acreditas,
acredite, eu não pertenço nem a mim mesmo!
A pressão me arranca o que resta de espontâneo,
Eu não existo para contradizer instintos,
eu não preciso por inércia ser ouvido:
Só resisto porque não quero existir mesmo!
Não nessa terra de poucos e estranhos amigos
De tão parcas coincidências e tão vastos amores
que, por mim e por ti, se fizeram sentidos.
* Homenagem ao filme de David Lynch, "Coração Selvagem".
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