domingo, 15 de julho de 2007

Ódio Secular


Só Deus explica qual é o problema
dessas pessoas que empinam os dedos
das mãos, dos pés, os olhos e o queixo
e fingem-se tão sóbrias e cheias de si
Tão óbvias em seus insights frescos!

Comentários certos na hora certa,
olhares lânguidos e palavras sábias;
Vão se foder... vocês, por acaso, imaginam
que a inteligência é coisa inata
E não produto de seu ego pitoresco?

Só eu entendo qual é a graça
de ser errante, previsível, infeliz e contente,
meter os pés pelas mãos e lábios, ou achas
que tanta perfeição é trivial, naturalmente
E não premissa para engolir melhor a si em seco?

Só o Diabo explica, mas ninguém me ouve, então
continuem vocês nessa vidinha de plástico
embebedem-se em rixas e colunismos sem teto ou chão
vou continuar aqui, assim, performático
Um quase apático no seu mundinho de ouro e esterco,
um velho espelho jogado no seu porão.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Insight

You stand in silence,
swept into the world you´ve created
By means of hatred and violence,
It´s no surprise you´re so disgraced

You hear them weeping
Their nails thumbing to the walls
And no one´s hearing, no one´s giving
A damn to one who crawls...

Behind you,
It´s just the same way you play
Driving insane from day to day...

You gaze to dark skies
Wiping tears off your whitened face
There´s a silence that cries
Between lines of unwritten space

Your heart´s still beating, though;
Who is this child you see on the mirror?
And no one´s seeing, no one´s listening
A damn word that you said so clear...

Before you do,
they´re all losing their grip
Driving insane from day to day...

You stand in silence,
and hear they sliding through the room
The more you´re silent
The more you hear them step on you;

You hear their thumbing nails on the door
You hear them asking for some more
Then you let go the devil in you.

El Club Silencio

Cale a boca,
e entre sem pudores,
esqueça dos rumores,
sinta-se à vontade;

Deixe,
fazerem-se inverdades,
de tantas vergonhas e sobriedades,
não finja estar sadio;

Não finja ser covarde,
já que os homens de bem, coitados,
não passam de marionetes de alma pura
A nós, meu caro
fica o papel de transformar o submundo
Em um antro de demência e luxúria:

Mande-os à merda, enfim
E junte-se aos demônios da sociedade.

Goze,
de tanto esforço e decência,
de toda a resignação e insistência
dos filantropos e intelectuais;

Cuspa,
na cara de todos,
deixe-os emocionar os frouxos
com suas propostas e guerras sociais

Pois este baixio de loucos
já tem homens de bem aos montes
e nada faz pelos que se assumem errantes;
Sempre, sempre, a mesma merda
reclamam dos cantos imundos
mas, o que fazem, além de postulados arrogantes?

Nada!
Mande-os à merda por mim,
pois tenho muito o que fazer na incubência de cuspir verdades.

domingo, 1 de julho de 2007

SP

Ah!
Há traços azuis por trás de tantas curvas cinzentas
Nas esquinas e becos, várias vozes e cantigas
Ecoando; Descansando sob o ar frágil e seco
Estão mil anos de devaneios urbanos
Por trás de olhos os quais vejo
na correria repousando
Um ar de amor ao desespero
e de torpor a ser humano.

E tantos tragam a luz do sol do meio-dia
Com seu hálito fresco e corpo cansado
A fumaça das ruas, vivas e cruas,
estradas de um pulsar ardente
É abrigo para toda essa gente
Que, ao apertar o passo
Se afoga em um ar febril e gelado
Se finge dona de um teatro
que encena e não sente.

Mas ah!
Há beleza em tanta loucura
Na imensidão de som e fúria,
há uma tristeza que não mais se sente;

Há, enfim, poesia na grande cidade,
as rimas renascem em meu peito;
de tuas cinzas, beldades:
Que o asfalto nasça
Viva a arte sem limites desta cidade inconseqüente!

sábado, 16 de junho de 2007

Limiar


- Hoje eu me senti um século mais velho
deitado ao teu lado, sem um pingo de desejo
Entrelaçando os dedos por entre teus seios,
ouvindo teu bocejo
Como se o amor em mim fosse senil,
inimigo de tão simples deletérios;

- E eu, que nunca havia te sentido tão distante
Senti, tão próximo de mim, em vão segredo
tua face, oculta nas entranhas do medo
como se ainda fosse cedo:
Não tenhas pena de mim, meu amor
é tarde demais para revelar-me jovem;

- És, em mim, reflexo dos mesmos anseios
quando pareci cansado, dei-me forças e, imune
Ao teu ardor, lutei, impune
contra as mesmas incertezas...
Acordei suado, meu amor,
de sangue dos meus lábios e lágrimas tuas.

- Vê? Este corpo que renegas neste instante
sentiste gozar, ao som das mesmas músicas cruas
Sentindo o cheiro de cachaça exalar por entre as curvas
das noites iguais, turvas, embriagantes
Como se o amor, para nós, fosse razão de vergonha
confesso amigo dos mais tristes romances;

- E o limiar que nos separa do desejo
é o mesmo que separa tua vida do meu simples toque
é a mesma tormenta que faz com que, a cada dia, esqueça
Os prazeres da morte que tanto almejo.

(Inspirado em Memória de Minhas Putas Tristes, do Gabriel García Márquez)

terça-feira, 12 de junho de 2007

Objetividade


Eu sempre me julguei mais esperto que vocês
Com minhas respostas prontas e bobagens inteligentes
Tais quais cusparadas de mais um jovem demente
Inconsequente, que nada sabe dos outros ou de si

Dentro destes versos, há uma falácia fútil
Criei entrelinhas para que ninguém pudesse lê-las;
Que pretensão!
Logo eu, que mal sei ler o mundo diante de meus olhos
Querendo ter colhões para lhes destilar o ódio
Em palavras difíceis e vagos devaneios

Tão fáceis de seguir,
Fosse o acaso, ao momento, próprio.

Mas eu desvelo o que há de belo no aleatório
Nas mesmas críticas óbvias e detalhes irrelevantes
Que, de tão repetidos em rimas pobres e irritantes
Já me fizeram ter certo prazer em ser prolixo.

Dentro deste homem, há desilusão com a sintaxe
Perdi as rédeas do que há de humano em mim;
Dei as costas para as velhas metalinguagens!
Logo eu, que me julgava pronto para renegar tudo e todos
Parte do mundo que revira o estômago de poucos
E dá sentido à popular felicidade:

Aprendi que, se quero me sentir vivo, preciso, sim
Renegar a mãe dos loucos: subjetividade.

(Poesia derrotista?)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Free Box

- Liberdade não é libertinagem.
Isso mata meu amor.
Teus dias sempre foram contados,na verdade.
- Eu sei lá,nem lembro de contar quantos dias a mais já tive!
- Isso é sorte.
- Eu chamo de acaso.

- Tua redoma não protege.
Essas noites recostadas na janela são um saco.
- Não joga isso na minha cara!
Eu preciso te dizer isso...se amanhã eu não acordar,
diz que foi sorte.
Que eu já fui tarde.

Ah,como eu te dou trabalho,meu amor.
E é tão bom viver pra crer
Que eu ainda ando com meus próprios pés
Ao mesmo tempo em que me faço um parasita em ti.

- Inocência é não sentir vontade.
Já te disse,estás comprando a dor
Por correspondência,beijo a morte nua em pêlo
- Juro que vou te dizer a verdade...
Faz dias que não me olho no espelho
Por ter medo de encarar tanta decadência

Tanta frescura não me ofende,
Diz se não é tarde demais,deixa estar,então
Fecha essa janela e deixa eu te desenhar na fumaça
O vidro não estilhaça
A porta não abre
As paredes nunca falam
Ninguém sabe,ninguém saberá

Ah,como eu estou aprisionado,só você entende
É tão bom poder te ter
E te perder e te vencer com um dramalhão qualquer
Eu nem mais ando nos meus pés
Eu me arrasto sem saber pra onde vou
Aonde vou cair de vez,só Deus sabe
Só sei que dessa caixinha eu não saio
E só me calo e paro de encher o ar de fumaça quando morrer.

(Arquivo-dos-não-postados-enquanto-a-criatividade-não-vem - Março - 2006)

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Prolixo



Acorda, levanta, come, fuma, toma banho, anda,
Rua!

É todo dia a mesma confusão,
rotina cíclica, hipertensão,
e não me venha com mais conselhos!

Chega, senta, lê, escreve, cochila, disfarça,
Pensa, repensa, supõe, argumenta,
E vai pra casa;

Mais um cigarro pra acalmar os sentidos
Mais uma pílula pra reavivar a alma.

12 horas, 13 horas, 13 e meia, 14 horas, 14 e meia,
Rua!

Não adianta fingir organização,
o caos é o mesmo companheiro todo dia:
A insônia, poeirenta paixão!

Senta, conversa, arruma o banco, acende outro,
Chega, senta, lê, escreve, reflete
E, de novo, sai correndo;

Na parada de ônibus, dá prum cochilo
E a Coca-Cola Light faz as vezes do veneno!

Passa o dia com vontade de sumir
por entre linhas e mais linhas de hipertexto;
Depois, chega em casa e sorri
pro yuppie prolixo que vê no espelho.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Póstuma Histeria Decadente

Se um dia fui um poço de inconformismo
Aos berros de asco, lhes provocando a esmo,
E se, assim, lhes mostrei o pouco que vejo,
Peço desculpas a vocês por tamanho egocentrismo.

Já fui menino, e assim sonhei com outros tempos
P´ro mundo dei de ombros: eis o resultado!
Um homem que envelhece numa redoma de aço
Entre livros e cansado, atolado em cigarros e escrevendo.

Aprendi a aprender e estudei a sua história,
Absorvi a metafísica, todas as fórmulas e conceitos;
E se a (cons)ciência nos dá, agora, certo orgulho no peito,
Levantemos então nossos diplomas hipócritas:

Saudemos os pós-doutores
Quanto mais burros, enferrujados e cheios de si,
Mais merecem nosso humilde respeito.

Se envelheci cedo demais, e o que está à minha volta
É prosa de um povo abobalhado, absorto em ideologias,
E se faço parte do coro, dissonante em velhas notas
Peço desculpas a vocês pelo fim do ódio e da histeria.

Aprendi a perder e perdi o rumo dessa história,
Engoli em seco o substrato de mil teorias falidas;
À demência, fica o fardo de guiar a minha vida
Ser assim é perder toda a beleza da retórica:

Enfim, saudemos os velhos amores
Os homens de hoje, de tão burros e cheios de si,
Enterram-se em versos de euforia!

E se a cólera de hoje são as meias-palavras
Vendidas nas esquinas por mendigos e delinqüentes,
Desculpem-me, intelectuais lustrosos e decadentes,
Mas a beleza reside nessas frases soltas e inacabadas:

Há uma poesia natural à vida, que renega o que de bom há
E, por vãmente o renegar, nos faz sentir jovens e ardentes.

(19/04/07 - fazia tempo que não escrevia algo extenso...)

sábado, 14 de abril de 2007

Mal-do-Século


Quando uma paz imensa floresce
em meio à confusão
de dias loucos e sem rumo,
você esquece, que sem direção
nós já somos,
o que nos falta é dar uma chance
ao previsível e ao oportuno.

Assim mesmo, dando de ombros
esqueçamos o quanto somos despreparados
o quanto se sabe do que sabem de nós,
afinal, nada mais vai dar errado
nós já o estamos,
o que nos falta é ligar os pontos
e no reatar dos nós,
descobrimo-nos escravos

De um roteiro em que não temos voz.

* E quando os rumos profissionais parecem estar finalmente se ajeitando, eis que (mais) um imprevisto joga o que vos escreve no emputecimento de praxe.