terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Liga

Isto, sim, é o grito reincidente dos loucos
Isto, sim, é a tal poesia para poucos;

Pois há versos que se tornam verdades,
curvas, esquinas, arroubos de insanidade
que, pouco a pouco, fazem questionar
as próprias verdades de quem as cria,
as recria, as procria, as esfria,

E faz, das rimas, pequenas beldades
manipuladas, tocadas, violadas, vendidas
e, pouco a pouco, unem-se e fazem feridas
nos versos pudicos de quem as inventa
as emenda, as encomenda, fingidas,

Essa, sim, é a cólera berrante dos roucos
Essa, sim, é a tal da poesia para loucos;

Poesia que, certamente, não deixa este plano
de metáforas, meias-palavras e doces eufemismos
e assim, de hipótese, é mais um ato de altruísmo
ser falsa, medíocre, safada, fugidia,

Se há coragem em seu peito, fuja de qualquer poesia
pois ela nos pega, nos amassa, nos contorce
toda a objetividade nos foge,
e, pouco a pouco, nos faz, de novo jovens,
nos arranca o que há de homens e faz, da carne, hipótese
do mundo, martírio
da vida, pecado:

E, assim, pouco a pouco, regredimos nós à fantasia!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

12.3

É um arroubo de poucas palavras,
de uma expressão pulsante e lúdica,
dizer, assim, sem quaisquer medos,
sem eufemismos ou menções pudicas,

É algo que resume tanto silêncio
e exprime tão pouca angústia
pois, natural e vívido ao sair da garganta,
arranca do peito as contradições mais puras,

os paradoxos mais loucos,
as noites menos memoráveis,
a falta do que fazer, a correria
os fatos, inexoráveis

as imbecilidades cotidianas,
as trivialidades, medidas aos sorrisos e beijos
a certeza da decadência, a incubência
As falsas verdades e os inversos desejos

É um arroubo de três palavras,
que, assim, transformam dores minguantes
em uma pequena e única cusparada
Jovem, ardente, pulsante:

Vão à merda!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

12.2

- Dedução à parte, sempre imaginei que ias perdê-la em alguma esquina.

- Esvaiu-se da forma que veio, não pude ao menos despedir-me, tocá-la...

- E nunca a tocastes, na verdade!

- Sim, mas pensa bem, é mentira dizer que apenas passou,
ela como que me abandona, aos poucos me tira a liberdade
me arranca os instintos, torna-me um poço de sobriedade
e transforma-nos nesta sina, nesse tal de ciclo que jamais finda
mas, ao mesmo tempo, nos aumenta a idade...
Só sei que, de agora em diante, nada quero,
pois tudo pelo que lutei tornou-se defasado, fútil ou simplesmente errado,
só espero que, agora, ao menos, o tédio transforme-se em paz e tranquilidade!

- É como eu sempre te dizia, amigo,
sempre há a perda de alguns hormônios, pêlos da face, força, energia
mas o que faz do rodamoinho uma vida é essa perda de mocidade.

12.1

Me dizem que há algo de muito honroso
em fazer parte de uma tal minoria consciente:

Não, não serei parte dessa história
e não serei orgulho de mais ninguém
senão deixarei de ver ouro onde há cinza reluzente;

Não deixarei que prepotência finja-se de intelectualidade sóbria
e recomendo que ninguém mais o faça
caso tema o ódio e a inveja conseqüente

E não deixei que toda essa falsidade, essa memória
fizesse sentido a mim, vivo ou em pedaços

Eu não deixarei que vocês desfaçam o estrago
que a (quase?) vida fez em mim.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Captions from Belém:

Na rua, passos apertados, cachaça, berros e buzinas
cavalos no trânsito, technobrega ecoando ao fundo
na pista, um homem linchado, ônibus cortando o sinal fechado
Travecos e putas acotovelando-se nas esquinas;

Na praça, maconheiros, traficantes, flanelinhas e camelôs
um posto fechado da polícia, toalhas na grama, "piqueniques"
Coretos mijados e grupos de teatro ensaiando calados
entre pilastras art-nouveau, bares sujos e velhos hippies;

No porto, canoas velhas e velhos barcos,
azedume de peixes, rabada aguada, farinha e pinga
Estivadores, mendigos, aromas e cheiros regionais
Na mansão ao lado, violão e voz, pratos finos e burguesia;

Trinta graus a vinte e cinco, chuva rápida e calor constante
Cinemas fechados, teatros falidos, galpões de pagode e, não obstante,
sãos e loucos dividindo mulheres, homens e mesas de bilhar,
intelectuais e novos-ricos lendo os mesmos manuais amassados
De vivência, educação, cidadania, civilidade - ou não -.
que, acreditem, não deixam de ser ensinados,
e de por ninguém se deixarem ensinar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

End of childhood

Lembras de quando sentiamo-nos únicos,
e do sangue que corria nos pulsos, outrora vivo,
que agora arrasta-se, hesitante, contra o peito;
Lembras de tudo que sentíamos?

Parecia-nos honroso viver perdidos
entre desejos conexos e idéias errantes,
como se o que nos resta de humanidade
clamasse aos berros, verdades,
que nos levassem a conclusões vis,
jovens, loucas, delirantes:

Garanto-lhes, homens de bem
Quando há um ponto final e muito a recordar
Algo de errado acontece,
e não é desespero, tampouco pesar,

É a certeza de que, antes de hoje,
sempre houve um ontem mais aconchegante.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Dezenove meses de...

Vivências, pequenas, mas não menos importantes
que, de meros retalhos,
tornaram-se pedaços de passos cantantes

Surpresas, essas, sim, digo a ti: tão grandes
lembram, aos poucos, que há cansaço
mas sempre espaço no mundo para novos amantes

Mesmo enquanto haja mormaço
em teus olhos, nos meus
há um azul relutante

E, por ti, sei que amar
Mesmo sem o saber
É escolha sem pesar,
e, entre eu e você,
já tenho muito o que recordar,
embora não precise o fazer,

Pois te amo, e, não obstante,
o clamo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Ville

Como gostaria de encontrar aquilo
Aquele monte de fumaça e comida fast-food
Aquela gente pálida, perdida,
como que vencida pela correria
Quilos de livros, cadernos e paredes azuis

Sentiria-me vivo ao acordar num susto
Atrasado sem jamais ter saído de casa
E aqueles carros, buzinas e espasmos
de gente berrando, se despedaçando
Sem nem ao menos ter saído do carro

Que ironia, pois aqueles loucos
Deus sabe!, eles sonham com um pouco de paz
Enquanto a gente, que vive enforcado entre árvores, arranha-céus e serpentes
Aguarda a história dar voltas e ver se, pra cá, alguém traz

Modernidade, cultura, vaidade, ruas largas, concreto cinza
Cinemas, bordéis, teatros, céus avermelhados em noites frias
Desespero, pressa, esperteza, correria diária, frieza, razão
Fumaça, fast-food, gente ensandecida, efervescência,
amor e poluição!

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Tout

À vontade, empurrem-se desejos
e verdades, e saudades
e anseios afins:

Não que algo possa ser resolvido ao acaso
Mas, fazendo ou não estrago
não custa nada tentar, sim!

Às mesmas idas, completem-nas vindas
e passeios, ou viagens
aos mesmos lugares, então;

Não que a vida, em si, seja um mercado
Mas, se em meus bolsos há trocados
nada custa gastá-los nas mãos
(ou trocá-los)

Às almas sentidas, a bebida
Aos roucos por natureza, o cigarro
Aos loucos de amor, a comida
Aos heróis de outros dias, o álcool;

Aos fingidos, o sangue-frio
Aos velhos hipócritas, o meio-termo
Às mulheres livres, os abortivos
Aos homens que resistem, o espelho!

Às grandes vaias, o silêncio
À modernidade, a decadência
Aos revoltados, a impunidade
Aos inventores, a delinquência;

Aos loucos por natureza, a rebeldia
Enlatada, como que medida nos berros
Pois o que resta de grandeza na vida
É cachaça embebida em esquinas de versos!

- Às verdades, deixe que tenho-as comigo
elas não ferem, tampouco querem
fazer-se sentidas sozinhas;

Mas, se que faço sozinho, a mim, abrigo
não basta viver uma só mentira,
É preciso existir sem refletir
Inverter as verdades e trocar os ponteiros.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Gerúndio

Há cansaço, e nasce aos poucos,
nas muitas coisas que vou fazendo
- ou arrastando? Que versos loucos...
Não há mais fúria, nem sentimento
Em mim ou nos outros,

Pois somos poucos
dentro de muitos que vão se enchendo
- de tanta merda! Seríamos ela...?
Não há loucura, nem sanidade
Só há remendo
onde outrora vi vaidade.

Pois fomos loucos,
e, entre tantos, fomos crescendo
- à sombra de homens de bem,
Não os perdemos, tampouco tentemos
Esquecê-los

Eles, como meu sangue, minha pele e meus pêlos
São recortes de quem já não está mais aqui
Só há remendos, pequenos espelhos
e hoje só vejo neles pequenas saudades.