sábado, 31 de dezembro de 2005

XX - 31/12



Tanta espera
Tantos sonhos omissos
Tanta esperança à espreita
De outros anos
De outros passivos desperdícios

Tantos suspiros
Tanto silêncio
Tantas palavras
Tantos sorrisos
Em tantos gritos contidos

E tanto tempo
Tantos anos a fio
Tantas horas adentro
Tantas menções
A tão pouco que se viu
Tantos outros que passaram
Tantos a vir
Tanto a se esperar
Tanto esperado
Tantos corpos cansados a se despir
De tanto.

Tantas mentiras
Tantas inverdades
Tanta pressa
Tanta calma
Em tanta maldade

Tantos olhares
Tanta tristeza
Tantos sorrisos enferrujados
Tanta inocência
Em tanta saudade

Pra que esperar tanto
Ou ter tanto
Se o mesmo canto,a mesma dança
Talvez torne a se repetir?

Antes ter cicatrizes
Um pouco de tanto
E tornar a ter tanto
Em outra chance de poder sorrir

Mas tanto passa
Quanto vem em silêncio
Sem a espera
Tanto se esperou sem ninguém
Ou nada
Tudo se acaba
Mas nada mudará,enfim
Tudo permanece como
Caminho percorrido na estrada
Na mesma estrada que se caminha,assim
a passos lentos.

E,mais uma vez,o tempo fica calado e nada dirá
Dirão os poucos que a fé em si é o sustento
Para se caminhar,de culpa isento
Rumo a outros tantos e enfins.

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José Augusto Mendes Lobato 31/12/05

Acabou.
Feliz Ano "Novo".

XIX - Dia 31 De 12 De 2005


Sempre estamos na espera
De que o tempo nos dê dias perfeitos
De que a perfeição que por nós é fingida
Seja um dia,mais que apenas um desejo

Mas devemos andar
Sempre em passo lento
Atravessando anos,meses,horas
Fazendo eternidades em cada momento
Trazendo nas conquistas
Ambições,apostas
Vitórias

Mas nossos pés vão se pisar
No mesmo caminho tortuoso
Encontraremos,nas rosas,os mesmos espinhos
As mesmas rimas em encontro com versos duvidosos

E as mesmas histórias...
"as mesmas" em termos
São outras mãos que carregam as vitórias
São outros olhos que refletem um tempo
Não perdido,mas vencido

E o que aprendemos
O que eternizamos
Tudo que perdemos e tudo o que ganhamos
É tempo vencido
Tempo sentido
Tempo que teve sentido de se viver.

Mais um ano que passa,
mais um passo adiante no caminho
Mais lágrimas,mais vivência
Mais cansaço,menos conformismo
Mais uma chance de ouvir
Mais uma chance de ser ouvido
Perdoar,entender,descansar
Amar,lutar,vencer,ser vencido

Aproveitar,curtir cada momento
Cada segundo
Ser o vencedor de uma batalha sem sair do lugar
Ser a cada dia,um vitorioso para si mesmo
Por seguir de mãos dadas com o tempo sem nunca estar perdido
Seguir aprendendo que aprender
É mais que aprender quando também se tem algo a se ensinar

José Augusto Mendes Lobato (madrugada de 31/12/05)


-------------------------- Este não será o último do ano. -----------

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

XVIII - Contra o Espelho


Em seio pálido,morto
Meu corpo descansa
Um aborto de minhas paixões
São os cacos de um espelho
Que se perdeu entre dias

Entre instantes sem rumo
A mente na penumbra
Procura a sobriedade
Nas vozes que entre paredes somem
e contorcem-se em mentiras

O corpo sente o frio
Da lâmina fina a fundir-se
à alma em delírio
No desespero,estão contidas
As memórias destroçadas

O passo é lento e tranquilo
As mãos se apóiam entre os pés
e o abismo
Debaixo destes pés descansa
a trilha jovem percorrida

Pelos pés que ousam pisar
Nos espinhos das mesmas rosas
E as feridas a sangrar
Revelam,escondidas
A vida a pulsar...

...De um coração já destruído
Morto,em ódio embebido
E a morte agora se reflete
no espelho
A alma voa
O corpo cede.

O que meus olhos vêem é chuva
O sangue é o espelho coberto pelo
alvo Véu de ódio e insanidade
que alimenta a covardia

De ter em atos crimes
Morte em olhares
Dor em redenção
E a navalha,a sangue frio
Corta a pele apodrecida

E os pés já não podem pisar
Na terra batida
E a mente livre a planar
Covarde,se rende
à eternidade vendida

Aonde meu corpo descansar
Cairá de joelhos o monstro a me guiar
Por entre cenas inventadas
Pelo desejo,à deriva
Para trás fica a mesma voz
Que controla,que consome
O impulso e o instinto
A visão distorcida
Contra um espelho
De memórias perdidas.

José Augusto Mendes Lobato 27/12/05

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

XVII - As entrelinhas alinhadas


Não me diga que se cansou de mentiras
Se nessas meias palavras
Disfarçadas em olhares
Sempre finges ter a certeza de um sorriso

E não me entenda como um falso
E não me force a dizer a verdade
Se posso me manter longe da sobriedade
Engolindo em seco teu pecado e teu domínio sobre mim

Sempre que tentas te achar dentro de mim
Descobres que uma parte de ti já está contida
Longe daqui,num canto empoeirado
Da memória do que foi a nossa vida

Não sinta a dissonância dos termos
Não odeie a inconstância deste lugar
E não me peça para te guiar por entre os espinhos
De cada rosa morta que vivemos a regar

E não ouça as entrelinhas que eu invento
Em cada segundo que desperdiço em amar
Tudo que está enterrado e que eu aguento
Fingir a cada noite desenterrar

Um sentimento
Não cobres de mim mais do que um canto triste
De um homem sedento
Por sentir,por ter alguém com quem dividir
Estes momentos a sós,sentados à beira do abismo
Com um violão e uns cigarros
Sozinho a cantar

A dissonância me atinge
Tal qual teus olhares odiosos
Em ver sentado,calado,teu destino
Entregue às reticências e demências do óbvio
E do ridículo
Com uns poucos versos rabiscados em um livro
Sozinho a cantar.

José Augusto Mendes Lobato 26/12/05

domingo, 25 de dezembro de 2005

XVI - O Pintor


Por tantas horas fiz o melhor que pude
Tentei trazer à tona
Mais do que a verdade que confunde
Tentei em uma vã atitude
dar asas à imaginação com a beleza e a inquietude
De uma pintura borrada
Sem sentido ou direção

Mas as cores se cruzaram
O indefinido,por entre horas se fez passado
Apagado pela insanidade
Das mãos que rebocam o quadro
Cobrem as cicatrizes com sorrisos
Enquanto as almas encarceradas nos retratos
Se torturam e se contorcem
Nos sorrisos enquadrados

A cada dia em que retoco
A obra que imagino estar em foco
Vejo mais campos serem cobertos no vermelho
Do sangue,do medo
Da ânsia,do desespero
Resta entrelaçalar as mãos e olhar,da janela,
a paisagem e buscar algo novo para se pintar...

Vês este mundo que esboço?
É um espelho empoeirado
Cansado de refletir nos nossos olhos os mesmos erros
Tantos DeJa Vus
São sempre desejos
De trazer a essas mãos um pouco de loucura
E trazer vida ao meu corpo nu;
Mas não mais retrato o que vejo.

Retrato um mundo cru
Que nunca vi
Mas sempre almejo.

José Augusto Mendes Lobato 25/12/05

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

XV - Paixão em Preto e Branco


Quem diria que um dia aqui iria estar
Sentado à beira da escada à tua espera,
a olhar as horas passarem e no teu seio depois descansar
a olhar tudo o que negamos do outro lado da janela

E quem diria que iria contemplar
Lá fora o mundo invejando tanto carinho
Tantas pétalas nas mãos se tornando espinhos
E os corações se acimentando em desespero

Em um quadro cinzento,preto e branco
Levam o vento as flores e os ponteiros mancos
do nosso tempo

Lá fora o mundo nos recebe com maldade
Em meus braços tens um pouco de inocência
Em nossos planos,um pouco de sinceridade
Em nossa redoma,um resquício de fraqueza

E quem diria que te teria como par
sentada aqui ao meu lado,encarando a beleza
dos meus versos como idealização
como se em ti não encontrasse a fronteira
Do que sinto em minhas mãos
E do que o coração deixa estar
Tua pureza e perfeição me dão um chão,
me dão um par.

E quem diria que iria contemplar
Lá fora o mundo invejando tanto carinho
Tantas pétalas nas mãos se tornando espinhos
E os corações se acimentando em desespero
E nós aqui,longe de tudo,
somos tão donos de nós mesmos
mas tão entregues um ao outro,
Olhando através do vidro
Tão ilesos.

José Augusto Mendes Lobato 21/12/05

domingo, 18 de dezembro de 2005

XIV - Sobre Deus e o Diabo a Quatro


Deus te deu os medos?
Vai temer a todo mundo!
Deus te deu o desespero?
Olhe pra trás,vá a fundo!
Deus te deu essas mãos?
Descreva uma oração nesse ciclo sem pé nem cabeça
Dê aos céus mudos um pouco de atenção!

Deus calou tua boca?
Vai chorar mudo!
Deus lava tuas louças?
Vai pra pia,sujismundo!
Deus te deu teus ouvidos?
Descreva com o coração como se sente ao escutar
As mesmas fórmulas inexatas serem exclamadas no altar

Basta um ranger de dentes,
um omilia e um pouco de vinho quente
E saberás o que esperar de si.

Deus não leva à forca
Mas me leva ao serrote!
Deus é pai,é senhor
- Ser meu pai é um esporte!
Deus te deu tua essência
Descreve toda a sua demência erguendo ao céu
Esse véu de abstinência que te fez o pior réu de si mesmo
E o pior escravo de Deus.

Basta ter nessa mente inerte
Um pouco da vontade de ser seu.

Deus garante teu almoço?
Vai trabalhar vagabundo!
Mas não tem emprego nem escola
Vai pedir esmola pro mundo!
Deus te deu a inocência
Para que descrevas como quebrá-la em segundos
E cobrir a devassidão com um mar de virtudes
Que sequer tens!

Basta nas veias correr sangue
Para cobrarem de ti dez améns!

Dá a Deus as mãos calejadas
E os joelhos sangrentos
Quem sabe ele não te faz merecer o que tens?

Deus não aprova a guerra
Mas nos deu a ambição!
Deus não castiga a nossa terra
Mas a tira de nossas mãos!
Deus nos renova a cada dia
Mas somos os mesmos desde quando?
Deus nos ama e nos dá a vida
Mas por quanto tempo fingirá por nós ter encanto?
Deus é o tempo,é a verdade
Mas de que inverdade se fez a razão?
Deus é clemência,Deus é piedade
Mas que piedade é essa que não sinto em meu coração?

E Deus é pai de todas as coisas
Mas todas as coisas escapam do nosso controle

Então Deus não passa de mais uma coisa
Que enfiamos goela abaixo
No desejo desesperado
De não ter rédeas para nós mesmos

E botar nessas mãos imaginárias
Um pouco do que seria a razão
E do que seria um pouco de desespero
Fingindo ser a beleza da vossa criação
Essa deprimência que nos controla
Esse ouro que nas nossas mãos se torna esterco.
Essa merda de religião
Que não importa a opinião
É merda pintada
É merda sagrada
É merda abençoada
É merda e mais merda do mesmo jeito.

José Augusto Mendes Lobato

18/12/05


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Por favor,não pensem bobagem.Eu sou católico,acredito
em Deus e discordo de tudo que escrevi acima;apenas fiz
um poema imparcial sobre os ateus,nada a ver comigo =)
Abraços.

XIII - Ventura


Não ouses tu!
Não enlaces minha essência em tão pobres frases
Não derrube o cálice de minhas mãos com esses olhos teus
Não ouse trazer nos urros e nos berros e nos sussurros
Sequer um sinal de prazer
Sequer um sinal de loucura

Não finjas tu!
Que nada do que,por nós,foi destruído
Para você, não era nada,
nada do que dizes faz sentido
Não ache nessas contradições e suspiros e sorrisos
Sequer um algo mais a dizer
Do que os subentendidos de outrora

Teus gritos são enlaces
Ousadas vozes que me prendem ao desejo
Quebras o encanto com os mais impuros olhares
Trazes mais loucura à minha mente com teu beijo
Não venha me dizer que a verdade não te ataca
Tua paz será eterna,e tua alma,serena,
descansará no ópio em que embebo as nossas almas
Deixa o medo,mais uma vez,achar abrigo em ti.

O vermelho será a cor de nossos olhos
Enquanto o pôr-do-sol
Nos banhar e cobrir os corpos nus.

Não julgues tu!
Esses impulsos que combato com a alma
Toda essa loucura que me arranca a razão
É a carne apodrecendo se desfazendo nessas mãos fracas
Que ainda seguram com calma
O enredo tresloucado desta paixão

Não vivas tu!
Mais um segundo sob o véu da sanidade
A noite clama por nós
A Ventura será eternamente uma saudade
Refletida sob o mesmo luar
Tal qual ganhaste um espelho em meu coração

Teus suspiros são afrontas
Ao que um dia tive : controle
Sob essa pele,a fúria do desejo me consome
Força-me a dar,a ti,amores
Esses que te arrancam as vestes
Te largam em preces
Te purificam na liberdade

E,na cama suada,te largas
Entregue às traças
E não haverá mais ameaças
se tudo que me disseste foi verdade

Deixa o fascínio que sobre ti exerço
Se tornar a Ventura
O vermelho
O desejo
Se tornar o cárcere do teu coração.

José Augusto Mendes Lobato
18/12/05

sábado, 17 de dezembro de 2005

XII - Os outros


Ando de mãos dadas com o espelho
Me julgando tão capaz
Mudando o mundo com conselhos
Fazendo guerras de paz
Que a mim não trazem e não fazem
Diferença qualquer

Refletindo nos erros
Um "Quê" de querer algo mais
Mas não fazer nada
Já que não há nada
Mais do que feridas
Entreabertas à espera
da hora de sangrar em paz

Tão simples e práticos,somos nada mais que estorvos
Corpos suspensos em mais um matadouro
À espera de um milagre
Não nos peça mais
Do que um olhar inexpressivo
para o que deixamos para trás.

Não somos nada além de outros.

Olho para os lados e vejo muito pouco
A mais do que veria se fosse louco
Mas não é mentira que levo entre os dedos
Palavras engolidas em sonhos
E sonhos engolidos a seco
Entre um gole e outro de mais uma dose de desespero.

Tão lacônicos em discursos performáticos
Gritando por horas,ouvindo os ecos apáticos
Encherem o vácuo em nossas mentes
Não nos peça mais
Do que um ranger de dentes
Nas horas em que vemos
Que não somos nada mais

Do que mais um pouco do que um pouco mais
Do que mais um outro
Do que meros outros.

José Augusto Mendes Lobato 17/12/05

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

XI - Crônica poética de mesa de bar


Te reconheci pelo jeito de andar
Tens os mesmos sonhos enrustidos
A mesma inconstância de odiar

- Você também,meu caro,vejo através dos teus olhos
Vamos fingir que podemos confiar um no outro?
Prometo dar a ti mais uma dose de ódio

Senta à mesa
Pede mais um drink!

Tens o mesmo papo encardido
- Você que sabe,meu amor,vejo apenas o que não é sentido
Finjo que por esses olhos nada passa
Prometo que neste coração nada é escondido

- Junte-se ao grupo
Tome um porre hoje comigo!

Entre um olhar e outro,caem as máscaras
Um sorriso largo que ofende
Um tapa na cara que abraça
Somos todos iguais perante a verdade
Decadentes,dementes
Deprimentes
Caras-metades vãs e inconsequentes.

O papo tá muito divertido,
mas cadê as palavras?
Onde foram parar os clichês nojentos
Estão eles entregues às traças?

- Não me diga!Que estranha essa vida
Sente,diga olá e me ofereça uma bebida

E eis que,em meio a aplausos,surge nosso eu lírico irônico
Sorrindo e cuspindo em nossos ouvidos
O mesmo discurso lacônico
As mesmas palavras embutidas em goles de uísque
Saem os vermes enterrados na pele
Saem os monstros que mantém embutidos
Nossos desejos mais inusitados
Tarados,safados
Pervertidos
- Enojados?
Que fiquem para trás os infelizes!

Já chega de devaneios
Vamos aos assuntos batidos
- Como anda esse governo?
Fica aí,que o papo vai ficar bonito!

Teimosia mata,meu senhor
- Acenderei só mais um cigarro!

As mãos se entrelaçam,bêbadas,perdidas
Promessas novas são rebocos
De mais promessas não-cumpridas
D´outros dias que passaram
Sob o mesmo luar
Igualmente sem par
Sem ar
- Descansar?
Isso é para os iniciantes
Já sou o teto desse bar!

- Chega mais que já estou cheio!
Aonde é que essa conversa vai terminar?
Não sei de vocês,mas a minha cabeça já está doendo
- Vai acabar em motel,meu amor
A noite segue enquanto houver luar!

- Deus que perdoe nossa total deprimência
Mas eu me conheço bem demais para acreditar
Que saio daqui vivo dessa vez
Que vou achar o caminho de volta pra casa...

Sãos e salvos num debate às avessas
Onde todos gritam e fingem escutar
Ninguém está a salvo,ninguém é inocente
E não é incoerente desconhecer o ombro em que se vai chorar
E,tal qual velhos amigos,
Todos se ajudam e se dão motivos para um ao outro chorar
Bastam as respostas disconexas
E as vidas são expostas indefesas
e decoram o ambiente
tenebroso e decadente de mais uma mesa de bar.

José Augusto Mendes Lobato

15/12/05