segunda-feira, 21 de junho de 2010

Han


Escolheu a melhor roupa,
decorou as falas, vírgulas e pausas
confirmou cada frase e, quem diria,
fê-las sair da boca charmosas,
pomposas, doentias, de tão falsas;

Teme a hora de dormir,
mas prefere deitar a ouvir - ver - os outros,
cansam as vozes, as respostas, os temas duradouros,
melhor deixar o peito arder e descansar,
tenso, dolorido, frágil, de tão conturbado;

Tem medo de tanta coisa,
desgasta-se tão à toa,
que pouco percebe a sensatez vagarosa
indo embora, silenciosa,
e, de novo, recomeça:

- Bom dia?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

#2


Todo dia acordava, a mesma menina,
enrolada em papel, na marquise de algum lugar,
vestia a mesma roupa, lavava o rosto, e andava, andava
no viaduto chegava e sentava sem falar;

Passava o dia calada, às vezes nem queria,
rastejava, ia e vinha, escutava - ouvia, até, sem reclamar;
dez picos depois, acabava a rotina,
deitava no chão e sentia, tranquila, que o dia já ia terminar;

Sozinha, rezava em voz baixa qualquer coisa,
mais por hábito (inércia?) que por acreditar;
de manhã, de novo, estava sozinha,
desta vez o sol já batia
tirava os trapos com que se protegia
daquele frio que só a rua lhe podia dar.

Assobiava, rosnava - falar, jamais - à gente que passava,
pedia qualquer coisa e ganhava um pouco mais,
corria pro mesmo viaduto,
sentava só, naquele canto escuro,
e torcia para que o dia, de novo, não tardasse a findar;

Todo dia pensava no quanto era sofrida,
no quanto o batente lhe doía
as pernas, as coxas, as costas, as mãos,
Mas chega de devaneio:
dessa vez, a noite era fria,
catava de novo os trapos, os panos, os papéis que nunca lia - não o sabia -,
deixava-os sobre a pele cansada
e voltava a se cansar.

Belo dia, acordou mais cansada que de hábito,
com vontade de falar, perturbar a ordem,
se fazer percebida - espernear;

Andou um pouco mais até a via expressa,
desviando da própria vida,
e, entorpecida, esquálida, histérica,
se jogou e se deixou - em paz - descansar.

#1


Não é difícil se impressionar
com tantos vaivéns, tanta gente, tanta pressa, tanta rua, tanta pista:
há certo charme em, por aqui, se perder - andar,
dar de cara com o inesperado,
talvez um novo bairro, imenso e isolado,
cercado de mais gente, mais vais e véns, mais vielas e avenidas;

Talvez seja mais fácil só olhar
e, à distância, fingir desprezo,
do que encontrar, entre as curvas, algum charme,
alguma beleza por trás do aço-e-concreto,
um parque, uma pracinha, uma calmaria,
uma tarde chuvosa e fria, uma entrada de bulevar;

É, no fim das contas, vale a pena
gostar - amar - tudo isso, mesmo que sem qualquer sutileza
talvez o melhor seja viver atrás da tal beleza
(que se esconde) em dias, ou madrugadas - ou vidas inteiras -,
tão belas e, ao mesmo tempo, tão pequenas.

domingo, 2 de maio de 2010

Pretensão


É tão fácil, mas tão fácil
presumir que todos são assim, vis e inconsequentes;
irresponsáveis travestidos de jovens promissores e emergentes,
fugitivos de sua própria vida, do dia-a-dia quente daquela cidade esquecida, inóspita,
calorenta, fracassada, falida,
deprimente

É tão fácil - mas nada válido -
criticar, generalizar, aproveitar a tal postura crítica e valente
para disparar todo tipo de observação, ponderação - asneira,
como se a vivência não falasse tão alto quanto a pretensão
de muito julgar, avaliar,
falar pelos cotovelos e para quem quiser ler
que todo viajante, migrante, é louco,
que todo cuidado é pouco
à hora de fazê-los encarar
a vida de cão que se insinua à frente;

Talvez veja assim por preguiça de se explicar,
ou avaliar as próprias ideias,
ou, quem sabe, generalizá-las demais tenha lá seu charme;
A verdade é que - doa a quem doer -
há aquele cheirinho de frustração no ar,
aquelas meias-palavras e citações cheias de mal estar
de quem por falta de oportunidade - ou coragem - ficou por lá
e agora vive assim, a si e aos outros remoendo

Inveja,
ou raiva,
ou ciúmes,
ou a consciência de que está brigando com tudo e todos,
talvez consigo.
E perdendo.

* Recadinho sutil. Como diria uma amiga, "Deus abençoe os chatos, pentelhos, imbecis e etc. de plantão".

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Town


There´s something beautiful in silence
And that´s so hard to discover
When you look at the window and, everyday,
there´s a mess ´round your eyes
that´s when you see
you judged a whole book by its cover;

This town´s so easy and charming
She´s conquered your heart, your mind and soul,
But ain´t there some charm in that good old damn town,
so dirty and dangerous and uncanny and forbidden
but you know - there, you just can´t go;

Feels good to be on your own,
sketching your own low drawings,
losin´ grip in your prayers and complaints:
could´t it be better if that was in vain?, you ask...

Guess not,
there´s a brand new game here to play,
so childish, so unholy
but, if you gain it,
you save the day.

sábado, 6 de março de 2010

Walk

Há, todos os dias, a mesma paisagem:
as mesmas leituras, olhares,
talvez seja assim mesmo e seja verdade
o que disseram sobre a ausência
aquela que jamais se sente, a não ser à distância,
aquela que dói, mesmo que justificada;

E a palavra certa não se diz,
não se sente, não se faz presente, não se repete - só em paisagem;
aqui, agora - ou amanhã -, só se pode ficar em silêncio,
guardando em mãos
a saudade, frágil e inerte.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Convenience


Would it take so long
for us to find reasons,
convenience,
and reach some kind of highness
some healing patience,
and feel like there´s nothing new to happen;

And wouldn´t it be nice
If we didn´t need to wash all those dishes
and clean that damn old scar that itches,
it´s hurting,
and making us think about this reckless existence,
well, there´s something that´s about to happen;

Will it grow ´til nowhere
or will it enlighten our hopeless lives?

sábado, 9 de janeiro de 2010

Colours #3


Por vezes sentia raiva daquela pequenez:
daquelas ruas repletas de ignorância,
daquela gente sem civilidade, inteligência ou tolerância;
Sentia nojo daquela cidade sem eira nem beira, sem lei,
e sem sequer um elemento que lhe desse beleza, textura,
fragância;

Doía no peito a insensatez daquelas (outras?) pessoas:
via-as generalizar, impôr olhares, fingir-se cultas,
mas triste mesmo era vê-las assim, desnudas:
Tinham nos olhos aquele brilho provinciano, decadente, passadista,
aquela suposta essência de uma gente natural, quase mística, pobre de espírito e miserável diante das outras:

Era, enfim, o primeiro sinal,
de que talvez tudo aquilo não lhe fosse tão estranho.

Costumava nutrir certo ódio por meias-palavras:
sabia do calor insuportável e dos modos tribais daquela gente,
para muitos, porém, não passava de jovem emergente,
mais um implicante, hormonal e ardente,
diante de toda a gente que conferia, a essa terra nojenta,
charme;

Não passava, no entanto, de uma desilusão das mais sinceras:
sabia ter em mãos a chance de nunca mais voltar,
mas sabia que, assim que desse, tornaria a visitar
aquela terra de tão estranhos costumes, de tanta imbecilidade,
de tão imensas dores, desamores e contrastes, pois ali havia
charme:

Era, enfim, um ponto final
para uma história de vais e vens com aquela cidade
repleta de amores, desamores
e desastres.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Colours #2

Veio tão rápido – na verdade, tanto esperou por aquilo
Que mal sabia o que dizer
Quando lhe perguntassem o porquê de fazê-lo;

Sentia, sim, muito medo,
Mas estava tão fora de si,
Em suas pequenas revelações e novos conceitos
Que aparentava só querê-la ali,
Mesmo que lhe faltasse ar no peito;

Sentia-se tão cercado de lucidez
Consigo e com os outros, tão sincero e imperfeito,
Que tinha certeza de querê-la ali, a seu lado,
Mesmo que transparecesse estar, assim, satisfeito.

Colours #1


E foi assim, sem mais nem menos:
Saiu de casa batendo as portas,
Levou à mente a cobrança insuportável,
As vontades incontroláveis
E os problemas cotidianos
Como que cobrando-lhes algo mensurável;

Era uma noite memorável, aquela:
Passou o ano inteiro atrás de respostas,
Ele fingiu tê-las, mas sempre deu de ombros
Sem dar as costas, deixou-as no ar
E as intermináveis chatices cotidianas
Fizeram o favor de deixá-lo insuportável

Mas o pior era aquela mansidão, aquele ar afável
Que tanto disfarçava os dissabores e lástimas
O pior era esperar resposta,
Como se tanta dor fosse assim, palpável
E visível em pequenas – e falsas – lágrimas.

Acordou sobressaltado, em agonia,
Levantou da cama com o coração à boca
Veio à mente a imagem insuportável,
A distância que jamais amargaria,
A certeza que tinha e teria
Garantindo-lhe que era algo interminável;

Foi uma madrugada memorável, aquela:
Passou a vida inteira em linhas óbvias,
Agora sabia não tê-las à frente,
Deu de ombros,
Sem resmungos à porta, deixou-se levar
E a inesperada tristeza cotidiana
Fez o favor de prová-lo vil e frágil

Talvez tanta sofreguidão, tamanho arrastar de palavras
Não seja mais para disfarçar tensões tão pungentes:
Seja, na verdade, para provar belos e ardentes
Dissabores assim, palpáveis
E visíveis em eternas – e jovens – mãos tão bem atadas.